domingo, 20 de abril de 2014

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades. 
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste  


Carlos Drummond de Andrade

Renda-se

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, 
  viver ultrapassa qualquer entendimento.

 

Clarice Lispector

sábado, 12 de abril de 2014

Esses Inquietos Ventos

Olá a todos!

    Como sou uma estudante de Letras, o objetivo deste blog é, em geral, promover a Literatura e a Língua Portuguesa - em especial as Literaturas Brasileira e Portuguesa.
    Postando curiosidades da nossa língua, dicas de livros, textos em prosa e poesia principalmente de autores brasileiros e portugueses para que se conheça mais sobre esse mundo literário tão rico de cultura e conhecimento. Vocês vão conhecer a vida e a obra desses escritores aqui.
    Em relação ao nome do blog,  - "Esses Inquietos Ventos" -, é uma homenagem a um dos grandes poetas brasileiros, que é o Mário Quintana, falecido em 1994. Além disso, significa que a literatura está sempre em movimento, ou seja, ela nunca para.
    Então, começarei postando esse poema, para que vocês o conheçam e desfrutem de suas belas palavras:

Esses Inquietos Ventos

Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: "Vamos caminhar,
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom sonhar....

E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar,
Beijar os seus entrefechados cílios,
E as dolorosas bocas a ofegar..."

Os ventos vêm e batem-me à janela:
"A tua vida, que fizeste dela?"
E chega a morte: "Anda! Vem dormir..."

Faz tanto frio... E é tão macia a cama:
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir
A inquieta voz do vento que me chama!


QUINTANA, Mario. A cor do invisível. Rio de Janeiro, Objetiva, 2012