quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Análise: Ressurreição, de Machado de Assis

Ressurreição é o primeiro romance de Machado de Assis, lançado em 1872. Já podemos perceber algumas características próprias do autor: a intimidade com o leitor, o enredo simples, a crítica social bem velada, o jogo de palavras, a intertextualidade.
Félix é uma figura emblemática. Nele, notamos a forte carga psicológica que carrega e que dá o pano de fundo ao livro. O rapaz é de família abastada, médico. Entretanto, é um sujeito vadio e despretensioso. Um dia, ele recebe uma herança e deixa de trabalhar, vivendo uma vida boêmia. Essa é a leitura mais superficial que podemos fazer. Mas há muito mais por trás disso.
Nosso personagem principal é um rapaz de 36 anos. Nessa idade, muitos homens já estão com a vida feita, ou pelo menos bem encaminhada: casados, com filhos, uma boa profissão. Mas, Félix é frio, cético e descrente no amor. Seus relacionamentos duram pouco. Casamento não existe em seu vocabulário.
A frieza de Félix é notada logo no início. O primeiro balde de gelo que o leitor recebe é quando Meneses, amigo de Félix, vai visitá-lo justamente para desabafar o seu sofrimento amoroso. Meneses acha que está sendo traído e pede conselho ao amigo. Félix reluta, mas acaba aconselhando: se é do coração que Meneses sofre, que ele arranque o coração!
A descrença no amor dura até o aparecimento de Lívia, uma jovem viúva, muito bela. Os dois se apaixonam, mas o relacionamento é marcado de idas e vindas. Félix é um homem muito desconfiado, ciumento e medroso. Por outro lado, Lívia é um poço de benignidade e virtude. Sempre perdoa o ciúme e a desconfiança de Félix.
Com Félix no centro da história, Machado de Assis nos alerta para um fato: podemos perder a felicidade por medo de arriscar. É o com acontece com o protagonista. Ele perde a oportunidade de alcançar a integridade emocional e termina a história completamente infeliz. A falta de confiança em si acaba se estendendo para as outras pessoas e afetando-as. No caso de Lívia, ocasionou o isolamento social.
        Primeiro romance, Ressurreição ainda dá conta de outras características interessantes dos personagens: a inconveniência de Viana, a vilania de Luís Batista, a submissão de Moreirinha.
        Viana é aquele indivíduo que o próprio narrador chama de parasita. Só aparece nas horas mais oportunas para ele e inoportunas para os outros – na hora do almoço, por exemplo. O que dá um tom de humor à obra.
        Moreirinha é uma raridade. Numa sociedade marcada pelo patriarcado, esse personagem é o avesso. Moreirinha passa a viver com Cecília, uma mulher, digamos, de muitos homens, porém fiel a cada um na sua vez e que outrora era amante de Félix. O pobre rapaz fazia os luxos da moça. Certo dia, Moreirinha se refugia na casa de Félix. Ele vem fugido dela! Como se não bastasse, Cecília vai até a casa do médico para buscar o fugitivo. Ao final, ela o leva e não sabemos de mais nada dele.
        Vemos, portanto, mais uma característica do estilo machadiano: a ironia. Como, numa comunidade baseada num tipo de organização reconhecida pela autoridade paterna, um homem se deixa resgatar, fugido e escondido da própria amante? Machado dá uma espetada nesses preceitos da época.
        Luís Batista é outra personalidade que merece uma reflexão. É um homem casado, infiel e não esconde isso de ninguém. Nem da esposa. Trata das amantes com muita naturalidade. A mulher Clara representa o que há de comum para a época: resigna-se com as atitudes infiéis do marido, pois o casamento era a única salvação e permanecer solteira era a sua desgraça. No século XIX, para pedir a dissolução do casamento, a mulher precisava provar a infidelidade e a crueldade do homem. Coisa muito difícil.
        De qualquer forma, dr. Batista caía de amores por Lívia. Como ela não dava a mínima atenção para ele, o homem fazia-se indiferente. Só aparência. Ele espera o momento certo. Se aproveita da fragilidade emocional de Félix para plantar mais desconfiança e temor: envia-lhe um pequeno bilhete misterioso, que faz o médico fugir do casamento e tornar-se infeliz pelo resto da história.
        Batista se faz muito dissimulado no seu último golpe: tudo feito fria e previamente calculado. Ele faz uma visita a Félix – coisa que ele nunca tinha feito. E começa com uma conversa estranha: a amante atual de Batista se encanta por uma gravura que Félix havia comprado. Trata-se de uma gravura de Betsabé (ou Betsabá) tomando banho no lago, sendo espreitada pelo rei Davi.
        Essa história da israelita e do rei Davi tem um enredo propício para a situação: o adultério. Betsabé (usando aqui a grafia utilizada por Machado) era casada com Urias. Um dia, se banhava no lago e o rei Davi ficou a espreitá-la. Os dois se deitam e ela engravida. Ela tenta se deitar com o marido, sem sucesso. Por causa de seu pecado, Davi foi humilhado e amaldiçoado.
        Luís Batista dá voltas nesse assunto até que ele faz chegar até Félix uma carta – detalhe que nós descobrimos depois no livro. A carta é anônima e muito bem escrita, como uma charada. O jogo de palavras é muito forte e bem arranjado. Machado o faz de tal maneira que o leitor deve desvendar o mistério e procurar a ligação que tem a carta com a história de Luís Batista.
        Nesse momento, percebemos a facilidade com que Batista penetra no espírito desconfiado e ciumento de Félix. Batista dá a entender que Lívia traiu o falecido marido e que trairá o próximo que vier. Isso tudo bastou para que o futuro de Félix e Lívia terminasse ali.
        O primeiro romance de Machado de Assis tem seus méritos, indiscutivelmente. Tem um caráter essencial e determinante na história desse escritor. Nesse romance, Machado mostra desde já sua virtuosidade no discurso rico em intertextualidade, crítica social, ironia, jogo de palavras.

        Ressurreição dá o primeiro passo nas características linguísticas e literárias do estilo machadiano, que vai ser firmado pelos outros romances como Memórias póstumas de Brás Cubas, Helena e outros, nesse tipo de modalidade literária. A obra reafirma a maestria e a destreza do escritor já consolidado em outros gêneros literários, como, por exemplo, os contos.

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