sábado, 23 de abril de 2016

Cavalo Branco

Havia numa aldeia um velho muito pobre, mas até reis o invejavam, pois ele tinha um lindo cavalo branco.
     Reis ofereciam quantias fabulosas pelo cavalo, mas o homem dizia:
     - Este cavalo não é um cavalo para mim, é uma pessoa. E como se pode vender uma pessoa, um amigo?
     O homem era pobre, mas jamais vendeu o cavalo. 
     Numa manhã, descobriu que o cavalo não estava na cocheira. 
     A aldeia inteira se reuniu e disseram:
-    Seu velho estúpido! 
-    Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado.
     Teria sido melhor vendê-lo. Que desgraça!
     O velho disse:
-    Não cheguem a tanto. 
     Simplesmente digam que o cavalo não está na cocheira. Este é o fato, o resto é julgamento. Trata-se de uma desgraça ou de uma bênção, não sei, porque este é apenas um julgamento.Quem pode saber o que vai se seguir?
     As pessoas riram do velho. Elas sempre souberam que ele era um pouco louco.  
     Mas, quinze dias depois, numa noite, o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, ele havia fugido para a floresta.  
     E não apenas isso, ele trouxera uma dúzia de cavalos selvagens consigo. 
     Novamente, as pessoas se reuniram e disseram:
-    Velho, você estava certo. Não se trata de uma desgraça, na verdade provou ser uma bênção.
     
     O velho disse:
-    Vocês estão se adiantando mais uma vez. Apenas digam que o cavalo está de volta... Quem sabe se é uma bênção ou não? Este é apenas um fragmento. Você lê uma única palavra de uma sentença como pode julgar todo o livro?
     
     Desta vez, as pessoas não podiam dizer muito, mas interiormente sabiam que ele estava errado. 
     Doze lindos cavalos tinham vindo. 
     O velho tinha um único filho, que começou a treinar os cavalos selvagens. 
     Apenas uma semana mais tarde, ele caiu de um cavalo e fraturou as pernas. 
     As pessoas se reuniram e, mais uma vez, julgaram. 
     Elas disseram:
-    Você tinha razão novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas e na sua velhice ele seria seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca.
     
     O velho disse:
-    Vocês estão obcecados por julgamento. Não se adiantem tanto. 
     Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isso é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos, mais que isso nunca é dado.
     Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou em guerra e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. 
     Somente o filho do velho foi deixado para trás, pois se recuperava das fraturas.
     A cidade inteira estava chorando, lamentando-se, porque aquela era uma luta perdida e sabiam que a maior parte dos jovens jamais voltaria.
     Elas vieram até o velho e disseram:
-    Você tinha razão, velho. Aquilo se revelou uma bênção. 
     Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos foram-se para sempre.
     O velho disse:
-    Vocês continuam julgando. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram forçados a entrar para o exército e que meu filho não foi. Mas somente Deus sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça. Não julgue, porque se você julgar jamais se tornará uno com a totalidade. Você ficará obcecado com fragmentos, pulará para as conclusões a partir de coisas pequenas. Quando você julga, você deixa de crescer. Julgamento significa um estado mental estagnado. E a mente deseja julgar, porque viver é arriscado e não julgar é desconfortável. Na verdade, a jornada nunca chega ao fim. Um caminho termina e outro começa. Uma porta se fecha, outra se abre. Você atinge um pico, sempre existirá um pico mais alto.  Aqueles que não julgam estão satisfeitos simplesmente em viver o momento presente e de nele crescer. Somente eles são capazes de caminhar com Deus.

(Texto recebido por e-mail sem autor conhecido)

domingo, 17 de abril de 2016

Ocorrência

Aí o homem sério entrou e disse: bom dia.
Aí outro homem sério respondeu: bom dia.
Aí a mulher séria respondeu:
bom dia.
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia.
Aí todos riram de
uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores
as paredes, o
relógio, a lâmpada, o retrato, os livros
o mata-borrão, os sapatos, as
gravatas, as camisas, os lenços.

Ferreira Gullar

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Desencanto



Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando cair um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912


Manuel Bandeira, in A cinza das horas

domingo, 3 de abril de 2016

Auto da Lusitânia

(...)
Entra TODO O MUNDO, homem rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que se lhe perdeu; e algo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama NINGUÉM, e diz:

NINGUÉM:
Que andas tu aí buscando?

TODO O MUNDO:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando.
por quão bom é porfiar.

NINGUÉM:
como hás o nome, cavaleiro?

TODO O MUNDO:
Eu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

NINGUÉM:
Eu hei Ninguém,
e busco a consciência.

BELZEBU:
Está é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

DINATO:
Que escreverei, companheiro?

BELZEBU:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.

(...)

BELZEBU:
Escreve lá outra sorte.

DINATO:
Que sorte?

BELZEBU:
Muito garrida
Todo o Mundo busca vida,
e Ninguém conhece a morte.

TODO O MUNDO:
E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.

NINGUÉM:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

BELZEBU:
Escreve com muito aviso.

DINATO:
Que escreverei?

BELZEBU:
Escreve
Que todo mundo quer paraíso,
e Ninguém paga o que deve. (...)

(Gil Vicente)