quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

E o poeta...

E o poeta
Diz que Orfeu encantou rochas e enchentes,
Porque não há nada de tão rude ou mau
Que a música não mude e não transforme.
O homem que não tem música em si,
Que a doce melodia não comove,
É feito pra traição e para o crime;
É como a noite o tom de seu espírito;
Seus sentimentos negros como Erebus;
Não é de confiança. Escuta a música!

(LORENZO, O Mercador de Veneza - William Shakespeare)


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Justiça em estado puro

"Quero que me ensinem também o valor sagrado da justiça — da justiça que apenas tem em vista o bem dos outros, e para si mesma nada reclama senão o direito de ser posta em prática. A justiça nada tem a ver com a ambição ou a cobiça da fama, apenas pretende merecer aos seus próprios olhos. Acima de tudo, cada um de nós deve convencer-se de que temos de ser justos sem buscar recompensa. Mais ainda: cada um de nós deve convencer-se de que por esta inestimável virtude devemos estar prontos a arriscar a vida, abstendo-nos o mais possível de quaisquer considerações de comodidade pessoal. Não há que pensar qual virá a ser o prémio de um acto justo; o maior prémio está no facto de ele ser praticado. Mete também na tua ideia aquilo que há pouco te dizia: não interessa para nada saber quantas pessoas estão a par do teu espírito de justiça. Fazer publicidade da nossa virtude significa que nos preocupamos com a fama, e não com a virtude em si. Não queres ser justo sem gozares da fama de o ser ? Pois fica sabendo: muitas vezes não poderás ser justo sem que façam mau juízo de ti! Em tal circunstância, se te comportares como sábio, até sentirás prazer em ser mal julgado por uma causa nobre!" 

Sêneca, in 'Cartas a Lucílio'


Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado, 
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo. 


CECÍLIA MEIRELES

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter 
brilho questionador tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim 
louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. 
Para isso, só sendo
 louco.
Quero os 
santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: 
metade bobeira, metade seriedade. 
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, 
daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice! 
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou. 


(Desconhecido)

Deixo um rastro branco...

... e turvo; 
águas pálidas, por onde quer que eu navegue.
 As ondas invejosas enchem-se para cobrir meu rastro; 
que seja, 
mas antes eu passo."


(Capítulo 18 - Moby Dick, de Herman Melville)

Poema do amigo aprendiz


Quero ser o teu amigo. 
Nem demais e nem de menos. 
Nem tão longe e nem tão perto. 
Na medida mais precisa que eu puder. 
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida, 
Da maneira mais discreta que eu souber. 
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar. 
Sem forçar tua vontade. 
Sem falar, quando for hora de calar. 
E sem calar, quando for hora de falar. 
Nem ausente, nem presente por demais. 
Simplesmente, calmamente, ser-te paz. 
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender! 
E por isso eu te suplico paciência. 
Vou encher este teu rosto de lembranças, 
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dicas para uma boa escrita

1.    Vc. deve evitar abrev., etc.
2.    Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, segundo deve ser do conhecimento inexorável dos copidesques. Tal prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisístico.
3.    Anule aliterações altamente abusivas.
4.    “não esqueça das maiúsculas”, como já dizia dona loreta, minha professora lá no colégio alexandre de gusmão, no ipiranga.
5.    Evite lugares-comuns assim como o diabo foge da cruz.
6.    O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
7.    Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.
8.    Chute o balde no emprego de gíria, mesmo que sejam maneiras, tá ligado?
9.    Palavras de baixo calão podem transformar seu texto numa merda.
10.    Nunca generalize: generalizar, em todas as situações, sempre é um erro.
11.    Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.
12.    Não abuse das citações. Como costuma dizer meu amigo: “Quem cita os outros não tem idéias próprias”.
13.    Frases incompletas podem causar
14.    Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma idéia.
15.    Seja mais ou menos específico.
16.    Frases com apenas uma palavra? Jamais!
17.    A voz passiva deve ser evitada.
18.    Use a pontuação corretamente o ponto e a virgula especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação
19.    Quem precisa de perguntas retóricas?
20.    Conforme recomenda a A.G.O.P.R. nunca use siglas desconhecidas.
21.    Exagerar é cem bilhões de vezes pior do que a moderação.
22.    Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”
23.    Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
24.    Não abuse das exclamações! Nunca! Seu texto fica horrível!
25.    Evite frases exageradamente longas, pois estas dificultam a compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-la em seus componentes diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.
26.    Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língüa portuguêza.
27.    Seja incisivo e coerente, ou não.

Andando

   
Me vejo como na imagem acima. Andando como diz Diego Torres. Andando com uma canção no coração, olhando quem vem, quem vai... Mas sempre andando! Como às vezes não dá para correr, vou andando a passos lentos e aproveitando para olhar.
    Não precisa ser um especialista em espanhol para entender as belas palavras de Diego, que diz tudo o que eu preciso dizer em uma composição instrumental que se correlaciona muito bem com a letra.
    Eu creio ainda na voz das pessoas com bom coração, apesar de um mundo tão perverso, o qual a desconfiança deve ser levada na nossa bagagem durante a caminhada; que às vezes o que dizem não é igual ao que farão - e isso tem que mudar. Busco o mais simples, que é por onde devo começar. Por que complicar mais ainda a vida? Talvez esquecer um pouco o rumo seja divertido... Andar sem ter pressa de chegar, como muito têm...
   Em outra parte da música fico refletindo que, quando a gente vai andando pela vida, vemos outras pessoas andando, correndo e algumas cruzam o nosso caminho e deixam uma marca, uma saudade quando vão embora e outras que simplesmente esquecemos, por uma questão de pouca importância em nossa vida.
   Olhando essa foto acima, penso que vivo um pouco perigosamente em relação às pessoas que me circundam, amigas ou não, talvez pelo meu jeito de agir e de pensar. Entretanto a música de Diego me faz supor igualmente que, dando os meus passos, também sei que não sou nem o melhor nem o pior para as pessoas, sou o que sou e não posso fingir, apenas sou assim.
    Andando, de Diego Torres, me faz imaginar tudo o que ele canta nessa canção por sua melodia cheia de vida, de essência de liberdade, desprendida e uma letra com muita fluidez, bem tranquila, os quais, nas entrelinhas, se percebe a arte da música e, quando eu a ouço, me faz ter a sensação de estar num espaço com águas de um rio em algum lugar que pertence ao paraíso neste planeta.
Camila Oliveira
Projeto Suas Palavras

Edição Sentidos

Consultores

 Era uma vez uma indústria de calçados aqui no Brasil que desenvolveu um projeto de exportação de sapatos para a Índia.
     Em seguida, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do País para fazer as primeiras observações do  potencial daquele mercado.
     Depois de alguns dias de pesquisas, um dos consultores enviou o seguinte fax para a direção da indústria:

     "SENHORES, CANCELEM O PROJETO DE EXPORTAÇÃO DE SAPATOS PARA A ÍNDIA. 
     AQUI NINGUÉM USA SAPATOS AINDA"

     Sem saber deste fax, alguns dias depois o segundo consultor mandou o seu:

     "SENHORES, TRIPLIQUEM O PROJETO DE EXPORTAÇÃO DE SAPATOS PARA A ÍNDIA.
     AQUI NINGUÉM USA SAPATOS AINDA."

     MORAL DA HISTÓRIA: 
  
     A mesma situação era um tremendo obstáculo para um dos
consultores e uma fantástica oportunidade para outro. 
     Da mesma forma, tudo na vida pode ser visto com enfoques e maneiras diferentes. 
     A sabedoria popular traduz essa situação com a seguinte frase:

     "OS TRISTES ACHAM QUE O VENTO GEME; OS ALEGRES, ACHAM QUE ELE CANTA."

     O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos.
     A maneira como encaramos a vida faz toda a diferença.

Convença-me

"Embora eu não acredite que uma planta possa brotar onde não haja semente, tenho muita fé na semente. Convença-me de que você tem uma semente, e estou preparado para esperar maravilhas."


(Henry David Thoreau)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Análise: Ressurreição, de Machado de Assis

Ressurreição é o primeiro romance de Machado de Assis, lançado em 1872. Já podemos perceber algumas características próprias do autor: a intimidade com o leitor, o enredo simples, a crítica social bem velada, o jogo de palavras, a intertextualidade.
Félix é uma figura emblemática. Nele, notamos a forte carga psicológica que carrega e que dá o pano de fundo ao livro. O rapaz é de família abastada, médico. Entretanto, é um sujeito vadio e despretensioso. Um dia, ele recebe uma herança e deixa de trabalhar, vivendo uma vida boêmia. Essa é a leitura mais superficial que podemos fazer. Mas há muito mais por trás disso.
Nosso personagem principal é um rapaz de 36 anos. Nessa idade, muitos homens já estão com a vida feita, ou pelo menos bem encaminhada: casados, com filhos, uma boa profissão. Mas, Félix é frio, cético e descrente no amor. Seus relacionamentos duram pouco. Casamento não existe em seu vocabulário.
A frieza de Félix é notada logo no início. O primeiro balde de gelo que o leitor recebe é quando Meneses, amigo de Félix, vai visitá-lo justamente para desabafar o seu sofrimento amoroso. Meneses acha que está sendo traído e pede conselho ao amigo. Félix reluta, mas acaba aconselhando: se é do coração que Meneses sofre, que ele arranque o coração!
A descrença no amor dura até o aparecimento de Lívia, uma jovem viúva, muito bela. Os dois se apaixonam, mas o relacionamento é marcado de idas e vindas. Félix é um homem muito desconfiado, ciumento e medroso. Por outro lado, Lívia é um poço de benignidade e virtude. Sempre perdoa o ciúme e a desconfiança de Félix.
Com Félix no centro da história, Machado de Assis nos alerta para um fato: podemos perder a felicidade por medo de arriscar. É o com acontece com o protagonista. Ele perde a oportunidade de alcançar a integridade emocional e termina a história completamente infeliz. A falta de confiança em si acaba se estendendo para as outras pessoas e afetando-as. No caso de Lívia, ocasionou o isolamento social.
        Primeiro romance, Ressurreição ainda dá conta de outras características interessantes dos personagens: a inconveniência de Viana, a vilania de Luís Batista, a submissão de Moreirinha.
        Viana é aquele indivíduo que o próprio narrador chama de parasita. Só aparece nas horas mais oportunas para ele e inoportunas para os outros – na hora do almoço, por exemplo. O que dá um tom de humor à obra.
        Moreirinha é uma raridade. Numa sociedade marcada pelo patriarcado, esse personagem é o avesso. Moreirinha passa a viver com Cecília, uma mulher, digamos, de muitos homens, porém fiel a cada um na sua vez e que outrora era amante de Félix. O pobre rapaz fazia os luxos da moça. Certo dia, Moreirinha se refugia na casa de Félix. Ele vem fugido dela! Como se não bastasse, Cecília vai até a casa do médico para buscar o fugitivo. Ao final, ela o leva e não sabemos de mais nada dele.
        Vemos, portanto, mais uma característica do estilo machadiano: a ironia. Como, numa comunidade baseada num tipo de organização reconhecida pela autoridade paterna, um homem se deixa resgatar, fugido e escondido da própria amante? Machado dá uma espetada nesses preceitos da época.
        Luís Batista é outra personalidade que merece uma reflexão. É um homem casado, infiel e não esconde isso de ninguém. Nem da esposa. Trata das amantes com muita naturalidade. A mulher Clara representa o que há de comum para a época: resigna-se com as atitudes infiéis do marido, pois o casamento era a única salvação e permanecer solteira era a sua desgraça. No século XIX, para pedir a dissolução do casamento, a mulher precisava provar a infidelidade e a crueldade do homem. Coisa muito difícil.
        De qualquer forma, dr. Batista caía de amores por Lívia. Como ela não dava a mínima atenção para ele, o homem fazia-se indiferente. Só aparência. Ele espera o momento certo. Se aproveita da fragilidade emocional de Félix para plantar mais desconfiança e temor: envia-lhe um pequeno bilhete misterioso, que faz o médico fugir do casamento e tornar-se infeliz pelo resto da história.
        Batista se faz muito dissimulado no seu último golpe: tudo feito fria e previamente calculado. Ele faz uma visita a Félix – coisa que ele nunca tinha feito. E começa com uma conversa estranha: a amante atual de Batista se encanta por uma gravura que Félix havia comprado. Trata-se de uma gravura de Betsabé (ou Betsabá) tomando banho no lago, sendo espreitada pelo rei Davi.
        Essa história da israelita e do rei Davi tem um enredo propício para a situação: o adultério. Betsabé (usando aqui a grafia utilizada por Machado) era casada com Urias. Um dia, se banhava no lago e o rei Davi ficou a espreitá-la. Os dois se deitam e ela engravida. Ela tenta se deitar com o marido, sem sucesso. Por causa de seu pecado, Davi foi humilhado e amaldiçoado.
        Luís Batista dá voltas nesse assunto até que ele faz chegar até Félix uma carta – detalhe que nós descobrimos depois no livro. A carta é anônima e muito bem escrita, como uma charada. O jogo de palavras é muito forte e bem arranjado. Machado o faz de tal maneira que o leitor deve desvendar o mistério e procurar a ligação que tem a carta com a história de Luís Batista.
        Nesse momento, percebemos a facilidade com que Batista penetra no espírito desconfiado e ciumento de Félix. Batista dá a entender que Lívia traiu o falecido marido e que trairá o próximo que vier. Isso tudo bastou para que o futuro de Félix e Lívia terminasse ali.
        O primeiro romance de Machado de Assis tem seus méritos, indiscutivelmente. Tem um caráter essencial e determinante na história desse escritor. Nesse romance, Machado mostra desde já sua virtuosidade no discurso rico em intertextualidade, crítica social, ironia, jogo de palavras.

        Ressurreição dá o primeiro passo nas características linguísticas e literárias do estilo machadiano, que vai ser firmado pelos outros romances como Memórias póstumas de Brás Cubas, Helena e outros, nesse tipo de modalidade literária. A obra reafirma a maestria e a destreza do escritor já consolidado em outros gêneros literários, como, por exemplo, os contos.

domingo, 26 de junho de 2016



Meus gostos são simples: 
                          ... prefiro o melhor de tudo.

*Oscar Wilde*
Somos donos de nossos atos,
mas não donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que sentimos; 
Podemos prometer atos, 
mas não podemos prometer sentimentos...
Atos são pássaros engaiolados, 
sentimentos são pássaros em voo.




Mário Quintana

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"De tudo ficam três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando
A certeza de que é preciso continuar
E a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminarmos.
Devemos fazer da interrupção um caminho novo,
Da queda uma dança
Do medo uma escada
Do sonho uma ponte
Da procura um encontro
"

(Fernando Sabino)
A palavra é o meu domínio sobre o mundo.

Clarice Lispector
                                              Minha força está na solidão. 
Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, 

  pois eu também sou o escuro da noite.




Clarice Lispector

domingo, 8 de maio de 2016

Construa com sabedoria!

Um velho carpinteiro estava pronto para se aposentar.
Ele informou ao chefe seu desejo de sair da indústria de construção e passar mais tempo com sua família. Ele ainda disse que sentiria falta do salário, mas realmente queria se aposentar.
A empresa não seria muito afetada pela saída do carpinteiro, mas o chefe estava triste em ver um bom funcionário partindo e ele pediu ao carpinteiro para trabalhar em mais um projeto como um favor.
O carpinteiro concordou, mas era fácil ver que ele não estava entusiasmado com a idéia. Ele prosseguiu fazendo um trabalho de segunda qualidade e usando materiais inadequados.
Foi uma maneira negativa dele terminar sua carreira. Quando o carpinteiro acabou, o chefe veio fazer a inspeção da casa. E depois ele deu a chave da casa para o carpinteiro e disse: "Essa é sua casa. Ela é o meu presente para você".
O carpinteiro ficou muito surpreso. Que pena! Se ele soubesse que ele estava construindo sua própria casa, ele teria feito tudo diferente.
O mesmo acontece conosco. Nós construímos nossa vida, um dia de cada vez e muitas vezes fazendo menos que o melhor possível na construção. Depois com surpresa nós descobrimos que nós precisamos viver na casa que nós construímos.
Se nós pudéssemos fazer tudo de novo, faríamos tudo diferente. Mas não podemos voltar atrás.
Você é o carpinteiro. Todo dia você martela pregos, ajusta tábuas e constrói paredes. Alguém disse que "A vida é um projeto que você mesmo constrói". Suas atitudes e escolhas de hoje estão construindo a "casa" que você vai morar amanhã.
Construa com Sabedoria!



(texto recebido por e-mail - autor desconhecido)

sábado, 23 de abril de 2016

Cavalo Branco

Havia numa aldeia um velho muito pobre, mas até reis o invejavam, pois ele tinha um lindo cavalo branco.
     Reis ofereciam quantias fabulosas pelo cavalo, mas o homem dizia:
     - Este cavalo não é um cavalo para mim, é uma pessoa. E como se pode vender uma pessoa, um amigo?
     O homem era pobre, mas jamais vendeu o cavalo. 
     Numa manhã, descobriu que o cavalo não estava na cocheira. 
     A aldeia inteira se reuniu e disseram:
-    Seu velho estúpido! 
-    Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado.
     Teria sido melhor vendê-lo. Que desgraça!
     O velho disse:
-    Não cheguem a tanto. 
     Simplesmente digam que o cavalo não está na cocheira. Este é o fato, o resto é julgamento. Trata-se de uma desgraça ou de uma bênção, não sei, porque este é apenas um julgamento.Quem pode saber o que vai se seguir?
     As pessoas riram do velho. Elas sempre souberam que ele era um pouco louco.  
     Mas, quinze dias depois, numa noite, o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, ele havia fugido para a floresta.  
     E não apenas isso, ele trouxera uma dúzia de cavalos selvagens consigo. 
     Novamente, as pessoas se reuniram e disseram:
-    Velho, você estava certo. Não se trata de uma desgraça, na verdade provou ser uma bênção.
     
     O velho disse:
-    Vocês estão se adiantando mais uma vez. Apenas digam que o cavalo está de volta... Quem sabe se é uma bênção ou não? Este é apenas um fragmento. Você lê uma única palavra de uma sentença como pode julgar todo o livro?
     
     Desta vez, as pessoas não podiam dizer muito, mas interiormente sabiam que ele estava errado. 
     Doze lindos cavalos tinham vindo. 
     O velho tinha um único filho, que começou a treinar os cavalos selvagens. 
     Apenas uma semana mais tarde, ele caiu de um cavalo e fraturou as pernas. 
     As pessoas se reuniram e, mais uma vez, julgaram. 
     Elas disseram:
-    Você tinha razão novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas e na sua velhice ele seria seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca.
     
     O velho disse:
-    Vocês estão obcecados por julgamento. Não se adiantem tanto. 
     Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isso é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos, mais que isso nunca é dado.
     Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou em guerra e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. 
     Somente o filho do velho foi deixado para trás, pois se recuperava das fraturas.
     A cidade inteira estava chorando, lamentando-se, porque aquela era uma luta perdida e sabiam que a maior parte dos jovens jamais voltaria.
     Elas vieram até o velho e disseram:
-    Você tinha razão, velho. Aquilo se revelou uma bênção. 
     Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos foram-se para sempre.
     O velho disse:
-    Vocês continuam julgando. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram forçados a entrar para o exército e que meu filho não foi. Mas somente Deus sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça. Não julgue, porque se você julgar jamais se tornará uno com a totalidade. Você ficará obcecado com fragmentos, pulará para as conclusões a partir de coisas pequenas. Quando você julga, você deixa de crescer. Julgamento significa um estado mental estagnado. E a mente deseja julgar, porque viver é arriscado e não julgar é desconfortável. Na verdade, a jornada nunca chega ao fim. Um caminho termina e outro começa. Uma porta se fecha, outra se abre. Você atinge um pico, sempre existirá um pico mais alto.  Aqueles que não julgam estão satisfeitos simplesmente em viver o momento presente e de nele crescer. Somente eles são capazes de caminhar com Deus.

(Texto recebido por e-mail sem autor conhecido)

domingo, 17 de abril de 2016

Ocorrência

Aí o homem sério entrou e disse: bom dia.
Aí outro homem sério respondeu: bom dia.
Aí a mulher séria respondeu:
bom dia.
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia.
Aí todos riram de
uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores
as paredes, o
relógio, a lâmpada, o retrato, os livros
o mata-borrão, os sapatos, as
gravatas, as camisas, os lenços.

Ferreira Gullar

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Desencanto



Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando cair um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912


Manuel Bandeira, in A cinza das horas

domingo, 3 de abril de 2016

Auto da Lusitânia

(...)
Entra TODO O MUNDO, homem rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que se lhe perdeu; e algo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama NINGUÉM, e diz:

NINGUÉM:
Que andas tu aí buscando?

TODO O MUNDO:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando.
por quão bom é porfiar.

NINGUÉM:
como hás o nome, cavaleiro?

TODO O MUNDO:
Eu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

NINGUÉM:
Eu hei Ninguém,
e busco a consciência.

BELZEBU:
Está é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

DINATO:
Que escreverei, companheiro?

BELZEBU:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.

(...)

BELZEBU:
Escreve lá outra sorte.

DINATO:
Que sorte?

BELZEBU:
Muito garrida
Todo o Mundo busca vida,
e Ninguém conhece a morte.

TODO O MUNDO:
E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.

NINGUÉM:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

BELZEBU:
Escreve com muito aviso.

DINATO:
Que escreverei?

BELZEBU:
Escreve
Que todo mundo quer paraíso,
e Ninguém paga o que deve. (...)

(Gil Vicente)