Ressurreição é o primeiro romance de Machado de Assis,
lançado em 1872. Já podemos perceber algumas características próprias do autor:
a intimidade com o leitor, o enredo simples, a crítica social bem velada, o
jogo de palavras, a intertextualidade.
Félix é uma figura
emblemática. Nele, notamos a forte carga psicológica que carrega e que dá o
pano de fundo ao livro. O rapaz é de família abastada, médico. Entretanto, é um
sujeito vadio e despretensioso. Um dia, ele recebe uma herança e deixa de
trabalhar, vivendo uma vida boêmia. Essa é a leitura mais superficial que
podemos fazer. Mas há muito mais por trás disso.
Nosso personagem
principal é um rapaz de 36 anos. Nessa idade, muitos homens já estão com a vida
feita, ou pelo menos bem encaminhada: casados, com filhos, uma boa profissão. Mas,
Félix é frio, cético e descrente no amor. Seus relacionamentos duram pouco.
Casamento não existe em seu vocabulário.
A frieza de Félix é
notada logo no início. O primeiro balde de gelo que o leitor recebe é quando
Meneses, amigo de Félix, vai visitá-lo justamente para desabafar o seu
sofrimento amoroso. Meneses acha que está sendo traído e pede conselho ao
amigo. Félix reluta, mas acaba aconselhando: se é do coração que Meneses sofre,
que ele arranque o coração!
A descrença no amor
dura até o aparecimento de Lívia, uma jovem viúva, muito bela. Os dois se
apaixonam, mas o relacionamento é marcado de idas e vindas. Félix é um homem
muito desconfiado, ciumento e medroso. Por outro lado, Lívia é um poço de
benignidade e virtude. Sempre perdoa o ciúme e a desconfiança de Félix.
Com Félix no centro
da história, Machado de Assis nos alerta para um fato: podemos perder a
felicidade por medo de arriscar. É o com acontece com o protagonista. Ele perde
a oportunidade de alcançar a integridade emocional e termina a história
completamente infeliz. A falta de confiança em si acaba se estendendo para as
outras pessoas e afetando-as. No caso de Lívia, ocasionou o isolamento social.
Primeiro romance, Ressurreição ainda dá conta de outras características interessantes
dos personagens: a inconveniência de Viana, a vilania de Luís Batista, a
submissão de Moreirinha.
Viana é aquele indivíduo que o próprio
narrador chama de parasita. Só aparece nas horas mais oportunas para ele e
inoportunas para os outros – na hora do almoço, por exemplo. O que dá um tom de
humor à obra.
Moreirinha é uma raridade. Numa
sociedade marcada pelo patriarcado, esse personagem é o avesso. Moreirinha
passa a viver com Cecília, uma mulher, digamos, de muitos homens, porém fiel a
cada um na sua vez e que outrora era amante de Félix. O pobre rapaz fazia os
luxos da moça. Certo dia, Moreirinha se refugia na casa de Félix. Ele vem
fugido dela! Como se não bastasse, Cecília vai até a casa do médico para buscar
o fugitivo. Ao final, ela o leva e não sabemos de mais nada dele.
Vemos, portanto, mais uma característica
do estilo machadiano: a ironia. Como, numa comunidade baseada num tipo de
organização reconhecida pela autoridade paterna, um homem se deixa resgatar,
fugido e escondido da própria amante? Machado dá uma espetada nesses preceitos
da época.
Luís Batista é outra personalidade que
merece uma reflexão. É um homem casado, infiel e não esconde isso de ninguém.
Nem da esposa. Trata das amantes com muita naturalidade. A mulher Clara
representa o que há de comum para a época: resigna-se com as atitudes infiéis
do marido, pois o casamento era a única salvação e permanecer solteira era a
sua desgraça. No século XIX, para pedir a dissolução do casamento, a mulher
precisava provar a infidelidade e a crueldade do homem. Coisa muito difícil.
De qualquer forma, dr. Batista caía de
amores por Lívia. Como ela não dava a mínima atenção para ele, o homem fazia-se
indiferente. Só aparência. Ele espera o momento certo. Se aproveita da
fragilidade emocional de Félix para plantar mais desconfiança e temor:
envia-lhe um pequeno bilhete misterioso, que faz o médico fugir do casamento e
tornar-se infeliz pelo resto da história.
Batista se faz muito dissimulado no seu
último golpe: tudo feito fria e previamente calculado. Ele faz uma visita a
Félix – coisa que ele nunca tinha feito. E começa com uma conversa estranha: a
amante atual de Batista se encanta por uma gravura que Félix havia comprado.
Trata-se de uma gravura de Betsabé (ou Betsabá) tomando banho no lago, sendo
espreitada pelo rei Davi.
Essa história da israelita e do rei Davi
tem um enredo propício para a situação: o adultério. Betsabé (usando aqui a
grafia utilizada por Machado) era casada com Urias. Um dia, se banhava no lago
e o rei Davi ficou a espreitá-la. Os dois se deitam e ela engravida. Ela tenta
se deitar com o marido, sem sucesso. Por causa de seu pecado, Davi foi
humilhado e amaldiçoado.
Luís Batista dá voltas nesse assunto até
que ele faz chegar até Félix uma carta – detalhe que nós descobrimos depois no
livro. A carta é anônima e muito bem escrita, como uma charada. O jogo de
palavras é muito forte e bem arranjado. Machado o faz de tal maneira que o
leitor deve desvendar o mistério e procurar a ligação que tem a carta com a
história de Luís Batista.
Nesse momento, percebemos a facilidade
com que Batista penetra no espírito desconfiado e ciumento de Félix. Batista dá
a entender que Lívia traiu o falecido marido e que trairá o próximo que vier. Isso
tudo bastou para que o futuro de Félix e Lívia terminasse ali.
O primeiro romance de Machado de Assis
tem seus méritos, indiscutivelmente. Tem um caráter essencial e determinante na
história desse escritor. Nesse romance, Machado mostra desde já sua
virtuosidade no discurso rico em intertextualidade, crítica social, ironia,
jogo de palavras.
Ressurreição
dá o primeiro passo nas características linguísticas e literárias do estilo
machadiano, que vai ser firmado pelos outros romances como Memórias póstumas de Brás Cubas, Helena e outros, nesse tipo de modalidade literária. A obra
reafirma a maestria e a destreza do escritor já consolidado em outros gêneros
literários, como, por exemplo, os contos.
