(...)
Entra TODO O MUNDO, homem rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa
que se lhe perdeu; e algo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama
NINGUÉM, e diz:
NINGUÉM:
Que andas tu aí buscando?
TODO O MUNDO:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando.
por quão bom é porfiar.
NINGUÉM:
como hás o nome, cavaleiro?
TODO O MUNDO:
Eu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.
NINGUÉM:
Eu hei Ninguém,
e busco a consciência.
BELZEBU:
Está é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
DINATO:
Que escreverei, companheiro?
BELZEBU:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.
(...)
BELZEBU:
Escreve lá outra sorte.
DINATO:
Que sorte?
BELZEBU:
Muito garrida
Todo o Mundo busca vida,
e Ninguém conhece a morte.
TODO O MUNDO:
E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
NINGUÉM:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
BELZEBU:
Escreve com muito aviso.
DINATO:
Que escreverei?
BELZEBU:
Escreve
Que todo mundo quer paraíso,
e Ninguém paga o que deve. (...)
(Gil Vicente)
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