sexta-feira, 8 de abril de 2016

Desencanto



Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando cair um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912


Manuel Bandeira, in A cinza das horas

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